Para manter a boa forma fazíamos corrida no gigantesco quarteirão do hotel, que englobava um condomínio de casas.
Nos primeiros fins de semana fomos para cidades de praia no lago, como Grand Haven e Muskegon. Fazia calor mas ventava, e até um dia entramos na água sem sal do lago Michigan. Havia atrações nestes locais como exposição de carros.
Descobrimos uma boate onde dava para jantar num restaurante chic e depois ir para a pista dançar as músicas da moda (Cupid shuffle). Era o The BOB (big old building). Era lá que as bachelorettes faziam suas despedidas de solteira. Os costumes americanos são diferentes, é o que eu posso dizer. Uma pessoa do grupo tinha horário fixo marcado com a noiva para conversar todos os dias (o ack das 10:00), e tinha que voltar ao hotel para telefonar, para depois nos reencontrar no the BOB.
Em um fim de semana fomos de carro para Chicago. Apertados para ir ao banheiro, paramos no primeiro bairro na periferia de Chicago, e segundo o Flamino entramos em um Black Donalds. Em Chicago subimos na Sears Tower, experimentamos a stuffed pizza e andamos na orla do lago, desde o Millenium Park até o Navy Pier. Também viajamos para o museu Ford e para Detroit em outros fins de semana.
Ao fim de um mês o Marquinho, que era recém casado, teve que voltar ao Brasil e o trabalho não dava sinais de estar chegando ao fim.
Se não me engano vieram então o Henrique Mohallem e o Matsumoto, pessoas diametralmente opostas. Mas uma coisa tiveram em comum: os dois se quebraram muito na viagem. Começamos a tomar mais café. Monster Mocha em latinha. Flamino começou a tomar energético nos intervalos do café. Em uma oportunidade compramos café com aroma de crème brulée, que ficou impregnado na sala por dias.
Nossos horários costumeiramente passavam das 12h de trabalho. Anotávamos tudo em uma planilha para solicitar as horas extras. Era normal sairmos só na hora do jantar (fechamento da lojinha do Vini), mas teve vezes que voltamos depois do jantar pela porta dos fundos e trabalhamos até depois das 22h.
O Henrique era um cara certinho, que no dia que eu percebi um erro no flowchart que ele fez a partir do código fonte, ele ficou pedindo desculpas totalmente humilhado e se auto-condenando. Fiquei até um pouco arrependido de mostrar o erro. A tensão constante lhe causou dores musculares. Ele vivia tomando uma balinha de morango para aliviar as dores. Começou a usar umas almofadas no ombro que o tornava parecido com o Robocop. Fazia natação na piscina do Hilton todo dia à noite na esperança de recuperar os músculos.
Ele nos proporcionou vários momentos de diversão às suas custas, dos quais me lembro bem de dois. Após o jantar a garçonete trouxe uma bandeja de doces cenográficos para vermos a aparência e escolhermos. Henrique perguntou se "eles eram reais", apontando para onde estava a bandeja, mas também os volumosos seios da garçonete, que se assustou com a ousadia da pergunta. Todos se seguraram para rir, mas quando rimos foi de soluçar. O Henrique abaixou a cabeça e murchou. Da outra vez, em uma celebração com aperitivos e cerveja, o Henrique contava que em Phoenix ficou preso trancado no banheiro do seu quarto de hotel. O Piracaia perguntou o que ele estava fazendo de tão íntimo para se trancar dentro do seu próprio quarto, e ele se envergonhou e se retirou silenciosamente da mesa. Foi uma situação muito constrangedora.
O Matsumoto sofreu da mesma tensão com o trabalho que o Henrique, mas ao invés de sofrer calado ele se manifestava de maneiras mais escandalosas. Promoveu ginástica laboral na sala junto com os contractors. Dizia que gritar Ulsa! fazia acalmar o stress, então o fazia subitamente. Um dia ele cortou o cabelo com máquina de barbear sozinho e chegou no dia seguinte com o cabelo todo falhado. Teve que voltar ao Brasil e nunca mais foi o mesmo, se é que um dia já tenha sido.
Quanto a mim não me alterei muito. O stress sofrido em conjunto me agradava. Que eu me lembre a única mancada que dei foi me trancar do lado de fora da área de piscina do hotel e ter que me dirigir à recepção em trajes de banho molhados para pedir outra chave. A piscina do Hilton era legal. Como aos sábados eram comuns acontecerem recepções de casamento, muita gente se hospedava lá na sexta feira, inclusive duas meninas de cabelo channel. Só quem viveu sabe. Toda friday night o Henrique, aquele certinho que nadava à noite, telefonava avisando que as meninas estavam indo para a piscina, mas que ele mesmo não iria ficar lá porque era um cara correto, e logo todos os brasileiros estavam posicionada nas cadeiras de piscina para assistir ao espetáculo. Jacuzzi, sauna, etc.
O tempo passava e o trabalho andava lentamente. Começamos a ver com mais frequência a presença de figuras ilustres. Tomamos café com o diretor Humberto. O VP brasileiro aparecia às vezes para dar uma cobrada geral. Uma das vezes foi durante um almoço na sala de trabalho, com o VP da empresa americana, onde a pizza foi acompanhada de uma bronca como eu nunca tinha presenciado antes.
Depois chegou a dupla de Rodrigos, que já haviam estudado juntos no PEE, e que ficavam se cutucando o dia inteiro, um provocando o outro. Um deles era o Kuntz, que era fanático por aeromodelos e sempre falava de ir no show girls, mas nunca chegou a ir. O outro era o Borbô, que não era muito afeito ao trabalho, e ainda atrapalhava os outros enquanto tentavam trabalhar. De manhã quando estávamos todos prontos para ir trabalhar ele chegava, atrasado, dizendo que ainda não tinha tomado café e que precisava parar no Starbucks, ou seja, todo mundo esperando até ele comprar os muffins para comer.
Mas também havia momentos felizes. O aniversário do Marengo no restaurante indiano. O aniversário do Vini em um restaurante refinado à beira do lago. O jogo de futebol americano na universidade.
A próxima atração a chegar foi o Samir, Cerávolo, Gustavinho e Variane, vindos do PEE a pouco tempo no DT. O Samir, não precisa nem falar, é uma fonte de situações inusitadas mistas de constrangedoras e engraçadas. No dia do Hooters, o Samir insistia que a garçonete estava a fim dele só porque ela era obrigada a ser simpática. Chamou ela para uma mesa separada para ficar conversando com ele e não dava sossego para a pobre. Tiramos fotos deste dia, mas não encontrei mais.
Houve também o incidente do traveller check. O quarto do Samir, como não podia deixar de ser, era uma bagunça. Tive a oportunidade de entrar lá e parecia que a empregada não entrava lá desde sua chegada, isto porque ele deixava sempre o sinal de "do not disturb" na porta. Não dava para ter controle sob o que estava lá dentro. Então um dia ele perdeu os traveller checks no quarto ou foi roubado, o que nunca saberemos, mas o fato é que teve que chamar a polícia. O Samir aproveitou a presença da polícia para tirar foto fingindo que estava sendo algemado.
O Vini teve que voltar por 10 dias para o Brasil para renovar a estadia de 3 meses. A Lilian ficou triste. Fiquei no lugar dele por esses dias coordenando o avanço das atividades da lojinha.
Mas estes momentos únicos estavam chegando ao fim. Estavam vencendo os meus 3 meses de estadia e eu precisava voltar ao Brasil. Minhas férias estavam a vencer então eu precisaria tirar um mês, e provavelmente o trabalho já estaria acabado quando eu voltasse de férias. Fui a última vez no the BOB com o Samir e o Cerávolo, e mandei o e-mail de despedida, de missão quase cumprida e de agradecimentos.
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